A crise climática representa o maior desafio já enfrentado pela humanidade e pode colocar em risco a própria sobrevivência da espécie humana. O alerta foi feito pelo neurobiólogo e escritor italiano Stefano Mancuso durante a inauguração do Centro de Ciências e Culturas Sesc RJ (CCCS) e da Galeria VÃO, no Rio de Janeiro.
Reconhecido internacionalmente por suas pesquisas sobre inteligência vegetal, Mancuso defendeu mudanças profundas na forma como as sociedades se relacionam com a natureza e criticou a resistência de setores que ainda minimizam os efeitos das mudanças climáticas.
CRISE CLIMÁTICA É O MAIOR DESAFIO DA HISTÓRIA
Durante a palestra, o cientista afirmou que o aquecimento global não pode ser tratado como um fenômeno temporário ou um simples ciclo natural.
“A crise climática é o problema mais grave que a humanidade já enfrentou em toda a sua história. Não se trata de uma crise passageira ou de um ciclo natural superável. Estamos diante de um risco real de extinção da nossa própria espécie se não mudarmos radicalmente a nossa relação com o planeta”, lembrou o cientista.
Segundo ele, um dos principais erros da humanidade é acreditar que pode existir de forma independente dos ecossistemas naturais e, especialmente, das plantas.
“Viver sob uma lógica de monocultura humana, como se pudéssemos existir isolados das outras espécies e sem depender diretamente delas, é uma ilusão perigosa que está nos conduzindo ao colapso”, afirmou.
CIÊNCIA DEVE GUIAR AS DECISÕES SOBRE O CLIMA
Mancuso também saiu em defesa da produção científica diante do avanço de discursos negacionistas relacionados às mudanças climáticas.
Para o pesquisador, dados científicos não podem ser tratados como simples opiniões em um debate público.
“É uma tremenda estupidez tratar a ciência como se fosse apenas uma opinião, especialmente quando estamos discutindo a crise climática. A ciência trabalha com fatos, evidências e dados consolidados, não com pontos de vista subjetivos que podem ser aceitos ou descartados ao gosto de cada um”, afirmou.
O especialista destacou que a adoção de políticas públicas baseadas em evidências é essencial para enfrentar os impactos crescentes do aquecimento global.
MAIS ÁRVORES E MENOS ASFALTO NAS CIDADES
Entre as soluções apontadas pelo neurobiólogo está a ampliação da presença da natureza nos centros urbanos.
Segundo ele, as cidades precisam reduzir áreas impermeabilizadas e investir fortemente em arborização para diminuir temperaturas, ampliar a qualidade de vida e reduzir riscos associados aos eventos climáticos extremos.
“Temos que retirar 20% das ruas e do asfalto das cidades para dar espaço às plantas. As administrações municipais que fizerem isso primeiro serão as que vão evitar milhões de mortes e poupar gastos econômicos colossais. As outras serão obrigadas a fazê-lo daqui a dez anos, sob regime de emergência, gastando dez vezes mais e carregando na consciência as mortes que poderiam ter sido evitadas”, concluiu.
A proposta ganha relevância em cidades brasileiras que enfrentam ondas de calor mais frequentes, enchentes e problemas relacionados à impermeabilização do solo.
AMAZÔNIA MOSTRA QUE DESENVOLVIMENTO E FLORESTA PODEM COEXISTIR
Ao abordar exemplos históricos, Mancuso citou antigas civilizações amazônicas que conseguiram desenvolver assentamentos humanos sem destruir a floresta ao redor.
Segundo ele, esses modelos demonstram que urbanização e preservação ambiental não precisam ser objetivos incompatíveis.
“As cidades antigas da Amazônia nos mostram um caminho fascinante. Elas não destruíam a floresta para existir: eram criadas dentro da própria floresta, em conexão íntima com ela. É a prova histórica de que o ser humano é capaz de projetar espaços habitáveis que coexistem com a biodiversidade, em vez de aniquilá-la como fazemos na arquitetura moderna”, disse.
O pesquisador argumenta que as plantas devem ser compreendidas não apenas como recursos naturais, mas como organismos capazes de desempenhar papel central na manutenção da vida no planeta.
INTELIGÊNCIA DAS PLANTAS PODE INSPIRAR NOVOS MODELOS SOCIAIS
Conhecido por popularizar os estudos sobre neurobiologia vegetal, Mancuso defende que as plantas possuem formas complexas de inteligência e adaptação.
De acordo com suas pesquisas, a tomada de decisões ocorre de maneira distribuída por todo o organismo vegetal, especialmente nas raízes, sem depender de um centro de comando único.
Para ele, esse modelo descentralizado e cooperativo pode oferecer importantes lições para sociedades que enfrentam desafios globais cada vez mais complexos.
JUSTIÇA É APONTADA COMO FERRAMENTA PARA COBRAR AÇÃO CLIMÁTICA
Além das transformações urbanas e culturais, o cientista defendeu o fortalecimento das ações judiciais voltadas à proteção ambiental.
Na avaliação dele, tribunais podem desempenhar papel decisivo para pressionar governos e empresas a cumprir metas ambientais e reduzir impactos sobre o clima.
“Os tribunais têm hoje papel fundamental para garantir que as mudanças aconteçam. A via jurídica, por meio de processos contra governos omissos e empresas poluidoras, tem se mostrado um dos instrumentos mais eficientes e realistas que temos para exigir o cumprimento de metas climáticas e a preservação do meio ambiente”, argumentou.
EXPOSIÇÃO REÚNE ARTE E REFLEXÃO SOBRE O FUTURO DO PLANETA
A passagem de Stefano Mancuso pelo Rio de Janeiro também marcou a abertura da exposição “Revolução das Plantas”, primeira mostra da Galeria VÃO.
Inspirada em uma das obras do cientista, a exposição reúne trabalhos de artistas brasileiros que exploram as relações entre natureza, tecnologia, biodiversidade e futuro.
A visitação é gratuita e ocorre de terça-feira a domingo, das 10h às 17h.
Segundo o coordenador do CCCS, Moises Nascimento, o espaço foi criado para aproximar ciência, cultura e reflexão crítica por meio de experiências acessíveis ao público.
“A galeria nasce do desejo institucional de criar um espaço que cultive, na mesma proporção, a mediação e divulgação do conhecimento científico, a fruição artística e a reflexão crítica, fios costurados a partir do diálogo entre os programas Cultura e Educação do Sesc RJ, no intuito de pensar mundos contemporâneos nos quais caibam outros mundos, bem como as diversas formas de habitá-los”, disse ele.